


A COPA:
A FIFA sempre buscou se manter afastada de questões políticas, mas na terceira edição da Copa do Mundo se viu imersa em um cenário marcado por conflitos internos e externos, especialmente na Europa.
O objetivo da entidade, ainda presidida por Jules Rimet, era realizar um torneio puramente esportivo, livre da propaganda política que marcou a edição de 1934. No entanto, os problemas começaram antes mesmo da definição da sede.
A Alemanha nazista, sob o comando de Adolf Hitler, buscava utilizar eventos esportivos como instrumento de propaganda da suposta superioridade ariana. Depois de sediar os Jogos Olímpicos de 1936, em Berlim, Hitler planejava repetir a estratégia com a Copa do Mundo de 1938.
A princípio, a única concorrente dos planos nazistas era a Argentina, que defendia a ideia de rodízio entre os continentes para sediar o Mundial. Porém, mais uma vez, Rimet entrou em cena e propôs que a França, seu país natal, fosse a anfitriã da Copa. Além de evitar as implicações políticas da candidatura alemã — e um possível novo boicote europeu caso o torneio ocorresse novamente na América do Sul — Rimet também viu vantagens em realizar o Mundial paralelamente à Grande Semana de Arte Moderna, que também aconteceria na França.
Contudo, a escolha francesa teve consequências. A Argentina se retirou da competição em protesto, e foi seguida pelos demais países sul-americanos, com exceção do Brasil. Soma-se a isso guerras, conflitos internos, desinteresse e incoerências geográficas, e o resultado foi que apenas 21 dos 34 países inscritos nas eliminatórias realmente entraram em campo.
A competição acabou se tornando majoritariamente europeia, com apenas três seleções de fora do continente: Brasil, Cuba e as Índias Ocidentais Holandesas (atual Indonésia), que se classificaram simplesmente por serem as únicas a não desistirem em seus continentes. Cuba e a Indonésia, ainda por cima, eram seleções sem tradição internacional.
Com 16 seleções classificadas e sorteadas para disputar o torneio no sistema mata-mata, como em 1934, surgiu um novo problema. Poucos meses antes do início da competição, a Áustria foi invadida e anexada pela Alemanha nazista. A Alemanha apenas comunicou à FIFA que os jogadores austríacos do “Wunderteam” passariam a integrar sua seleção. A entidade máxima do futebol tentou encontrar alternativas, mas sem sucesso e a Copa acabou sendo disputada com apenas 15 equipes, e a Suécia, que enfrentaria a Áustria, avançou automaticamente para a fase seguinte.
Na primeira rodada, o Brasil venceu a Polônia por 6 a 5, em um jogo épico, e Cuba eliminou a Romênia, em uma das maiores zebras da história das Copas. Já a Alemanha, mesmo com o reforço de cinco jogadores austríacos, foi eliminada logo na estreia.
A propaganda política, no entanto, não parou por aí. A seleção da Itália, tradicionalmente vestida de azul, enfrentaria a França nas quartas de final, que usava a mesma cor. Aproveitando a ocasião, o ditador Benito Mussolini viu uma oportunidade e a Azzurra entrou em campo com uniformes todo preto, a cor dos camisas-negras, símbolo do partido fascista.
A Itália, que já havia vencido a Copa de 1934 e as Olimpíadas de 1936, eliminou a França e depois o Brasil nas semifinais, chegando à final contra a Hungria. Antes do início do torneio, Mussolini havia enviado aos jogadores italianos um telegrama motivacional com apenas uma frase: “Vencer ou morrer.”
Com isso na mente, os italianos venceram a final por 4 a 2, conquistando o bicampeonato mundial — e, segundo o regime fascista, a “vida”.
O BRASIL NA COPA:
Depois do fraco desempenho nas duas primeiras Copas, causado principalmente por disputas internas entre cariocas e paulistas, o Brasil chegou, pela primeira vez, a um Mundial com uma equipe forte e chances reais de título.
Apesar de ter realizado poucas partidas nos anos que antecederam a Copa, a delegação conseguiu fazer uma boa preparação e chegou à França com bastante antecedência. O time contava com jogadores talentosos como Domingos da Guia, Romeu Pellicciari e José Perácio, mas o grande destaque era, sem dúvida, Leônidas da Silva, o “Diamante Negro”. No comando da equipe estava o técnico Ademar Pimenta, que, embora dedicado e bom no trato com os jogadores, era suscetível a pressões internas e não acompanhava as evoluções táticas da época.
O primeiro adversário do Brasil foi a truculenta seleção da Polônia. Como ambas as equipes usavam camisas brancas, e o Brasil perdeu no sorteio, precisou improvisar um uniforme reserva e jogou com camisas azul-celeste. Essa foi a primeira vez que o Brasil não jogou de branco em Copas do Mundo.
Quando a bola rolou, o Brasil dominou o início do jogo e chegou a marcar três vezes. No entanto, no segundo tempo, sob chuva e com o gramado em péssimas condições, os poloneses reagiram e empataram em 4 a 4. Com o empate no tempo regulamentar, a partida foi para a prorrogação — e então o Diamante Negro brilhou mais do que nunca, marcando dois gols. Diz a lenda que o primeiro foi marcado com os pés descalços. O atacante Ernest Wilimowski ainda descontou para a Polônia, marcando seu quarto gol na partida e se tornando, até hoje, o jogador que mais marcou gols contra o Brasil em uma única partida. Mas já era tarde: o Brasil venceu por 6 a 5, em uma das partidas mais emocionantes da história das Copas.
Nas quartas de final, o adversário foi a Tchecoslováquia, vice-campeã em 1934. Depois de um jogo duro e violento, que terminou empatado em 1 a 1, as seleções se enfrentaram novamente alguns dias depois, com diversas mudanças forçadas por lesões sofridas no primeiro confronto. Com um time mais “pesado”, o Brasil buscou a classificação e venceu de virada por 2 a 1.
Na semifinal, o desafio era ainda maior: enfrentar a Itália, campeã da edição anterior. Para piorar, o Brasil perdeu seu maior astro: Leônidas, contundido, não tinha condições físicas de entrar em campo. A seleção brasileira conseguiu equilibrar o primeiro tempo, mas logo no início da etapa final os italianos marcaram dois gols. Romeu ainda diminuiu no fim, mas não foi suficiente para evitar a derrota por 2 a 1.
Coube então ao Brasil disputar o terceiro lugar contra a Suécia. Os europeus chegaram a abrir dois gols de vantagem no primeiro tempo, mas com o retorno de Leônidas, o Brasil reagiu e virou a partida, vencendo por 4 a 2. Leônidas marcou duas vezes e se consagrou como o artilheiro da Copa do Mundo de 1938, com 7 gols.
A conquista da terceira colocação — a melhor campanha do Brasil até então em Copas — aliviou a frustração de não chegar à final e teve o reconhecimento popular. Milhares de pessoas acompanharam o desembarque da delegação em solo brasileiro, celebrando o feito da seleção.
OS UNIFORMES:
Na Copa do Mundo de 1938, os uniformes usados pelas seleções ainda refletiam a estética e os materiais típicos da década de 1930: design simples, tecidos pesados e cores sólidas. Os calções eram curtos e largos, enquanto as camisas, geralmente feitas de algodão grosso, apresentavam, em alguns casos, amarração na gola em vez de botões.
Apesar da simplicidade, praticamente todas as camisas já traziam o distintivo da federação ou a bandeira nacional bordada no peito, o que conferia uma estética única e agradável a cada uniforme. Por outro lado, a numeração dos jogadores, embora já popular em campeonatos britânicos, ainda não era utilizada na Copa do Mundo.
Algumas seleções já contavam com uniformes reservas bem definidos, como Hungria, Suíça e Tchecoslováquia, mas a maioria ainda não os possuía, o que gerou alguns casos curiosos. Na sua estreia, por exemplo, o Brasil teve que improvisar camisas azul-celeste para enfrentar a Polônia, pois ambas as seleções utilizavam camisas brancas. Foi a primeira vez que o Brasil não jogou de branco em Copas do Mundo.
Já a campeã Itália foi além: aproveitou o confronto contra a França para entrar em campo com um uniforme completamente preto, em alusão aos “camisas-negras”, símbolo do partido fascista. Curiosamente, essas cores eram normalmente utilizadas pelo goleiro italiano Franco, que, nessa partida, teve que improvisar uma camisa branca.
Falando em goleiros e uniformes alternativos, há indícios de que o goleiro polonês Edward Madejski tenha utilizado o uniforme reserva da Polônia no jogo contra o Brasil: camisa vermelha e calção branco — um visual incomum para goleiros nessa época.
Curiosidades:
Ao Vivo – Primeira transmissão radiofônica do Brasil em Copas
Pela primeira vez, as partidas do Brasil foram transmitidas ao vivo por rádio para os torcedores. A transmissão era feita através de cabos telefônicos intercontinentais e retransmitida por ondas curtas. Dessa forma, milhares de pessoas puderam acompanhar os jogos na voz de Gagliano Netto, que viajou à França com a delegação brasileira e narrou os jogos à beira do campo.
“Domingada”
Domingos da Guia, um dos principais jogadores da seleção brasileira, cometeu pênaltis nas três primeiras partidas da Copa. Embora os dois primeiros tenham sido consequência do frágil sistema defensivo brasileiro, o último não teve justificativa: dentro da área e longe da disputa pela bola, Domingos deu uma rasteira em Silvio Piola, sem motivo aparente. O árbitro viu o lance e marcou pênalti para a Itália. O gol italiano resultou na eliminação do Brasil, e a expressão “domingada” passou a ser usada como sinônimo de fazer algo estúpido e sem sentido.
Com os pés no chão (ou quase)
A chuva havia transformado o gramado em um verdadeiro lamaçal. O placar estava 4 a 4 no início da prorrogação entre Brasil e Polônia. A lenda diz que as condições eram tão precárias que a chuteira de Leônidas se rompeu. Enquanto a comissão técnica tentava consertá-la, Leônidas continuou jogando — e, após um rebote do goleiro, teria marcado o quinto gol brasileiro com o pé descalço.
Pela regra, isso seria ilegal, mas o árbitro Ivan Eklind não teria percebido devido à quantidade de lama nos pés do jogador.
Verdade ou mito? O fato é que o episódio se tornou um dos mais lendários da história das Copas.
3º e 4º lugar definidos em campo pela primeira vez
Pela primeira vez na história das Copas, houve uma partida para decidir o terceiro lugar. Até então, essa posição era determinada com base na campanha até as semifinais.
Em 1938, a disputa foi entre Brasil e Suécia, com vitória brasileira por 4 a 2. Embora se trate de uma partida que muitos jogadores preferem evitar — por ocorrer após uma derrota —, nesse caso foi bem recebida pelo público brasileiro, que reconheceu a boa campanha da seleção.
Papel heroico – O “Homem de Papel” que desafiou o nazismo
Em 1938, o maior craque do Wunderteam austríaco era Matthias Sindelar, conhecido como o “Homem de Papel” por sua leveza e agilidade. Após a anexação da Áustria pela Alemanha nazista, ele recusou-se a integrar a seleção alemã, um ato de coragem em plena tensão política. No ano seguinte, Sindelar foi encontrado morto em circunstâncias suspeitas — muitos acreditam que foi um assassinato disfarçado, devido à sua postura de resistência ao regime.
JOGOS:



